Capacitação de vereadores: pode a Câmara pagar? Análise do TCM-GO

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Capacitação de vereadores: pode a Câmara pagar? Análise do TCM-GO

Introdução: Um dilema comum na gestão legislativa municipal

Uma dúvida recorrente entre gestores e agentes políticos municipais é sobre a legalidade de a Câmara de Vereadores arcar com os custos de cursos, seminários e congressos para seus membros. O investimento na capacitação é crucial para o aprimoramento da função pública, mas como garantir que essa despesa esteja em conformidade com a lei e os princípios da administração? O Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO), por meio do Acórdão AC-CON N. 07336/15, trouxe diretrizes claras sobre o tema, oferecendo segurança jurídica para os gestores.

A decisão do TCM-GO responde a uma consulta da Câmara Municipal de Mairipotaba, estabelecendo que o custeio é possível, desde que uma série de critérios técnicos e legais seja rigorosamente observada.

O que o TCM-GO decidiu sobre o custeio de cursos para vereadores?

A resposta do Tribunal foi afirmativa: sim, a Câmara Municipal pode custear cursos, treinamentos e seminários para seus agentes políticos. No entanto, essa permissão não é um cheque em branco. A validade da despesa está condicionada ao cumprimento de requisitos que garantem o interesse público e a correta aplicação dos recursos.

O entendimento do TCM-GO se alinha ao princípio da eficiência, previsto no artigo 37 da Constituição Federal, pois a capacitação dos agentes públicos tende a resultar em um melhor desempenho de suas funções, beneficiando toda a coletividade.

Quais são os requisitos obrigatórios para a despesa ser legal?

Para que a Câmara Municipal possa custear a capacitação de seus vereadores de forma legal e transparente, o TCM-GO destacou a necessidade de observar os seguintes critérios:

  • Pertinência com a função: O curso ou treinamento deve ter relação direta com as atribuições e funções desempenhadas no exercício do mandato de vereador. Cursos de temas genéricos ou sem aplicação prática para a atividade legislativa não são permitidos.
  • Autorização Legal: É indispensável a existência de uma lei específica que autorize e regulamente a concessão desse tipo de despesa. Essa norma deve estabelecer critérios objetivos e impessoais para a escolha dos beneficiados, em respeito aos princípios da impessoalidade e isonomia.
  • Dotação Orçamentária: A despesa deve estar previamente prevista no orçamento da Câmara Municipal. Não pode haver gasto sem a correspondente dotação orçamentária para cobri-lo.
  • Processo de Licitação: A contratação da instituição que ministrará o curso deve, em regra, ser precedida de licitação pública, conforme o art. 37, XXI, da Constituição. O acórdão menciona, contudo, a possibilidade de contratação direta por dispensa (em razão do valor) ou inexigibilidade (nos casos de serviço técnico especializado de natureza singular), conforme previsto na Lei 8.666/93.

Despesa com cursos entra no limite de gastos com pessoal da LRF?

Este é um dos pontos mais importantes da decisão e um alívio para os gestores. O TCM-GO foi categórico ao afirmar que a despesa com o custeio de cursos, treinamentos e seminários para vereadores não se caracteriza como despesa com pessoal para fins da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF - Lei Complementar n.º 101/2000).

A fundamentação está no artigo 18 da LRF, que define o que é considerado despesa com pessoal. Como os gastos com capacitação não se enquadram nas espécies remuneratórias ali listadas (vencimentos, subsídios, adicionais, etc.), eles não impactam o cálculo do limite de gastos com a folha de pagamento do Poder Legislativo Municipal.

Conclusão: Capacitar com responsabilidade

A decisão do TCM-GO (Processo n.º 07336/15) serve como um guia seguro para as Câmaras Municipais que desejam investir na qualificação de seus vereadores. Fica claro que a capacitação não apenas é permitida, mas também incentivada, desde que o processo seja conduzido com total aderência aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência.

Para o gestor público, a lição é clara: planeje, crie uma norma interna, preveja no orçamento e siga os ritos de contratação. Agindo assim, o investimento no aprimoramento dos agentes políticos será visto como um benefício para a administração e para a sociedade, e não como um desvio de finalidade.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta direta ao Acórdão do TCM-GO ou a uma assessoria jurídica especializada.

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Sobre o Autor: Vinícius Nscimento Santos

Auditor de Controle Externo no Tribunal de Contas dos Municípios do Estado de Goiás, atualmente Secretário de Atos de Pessoal. Advogado. Bacharel em Direito pela PUC/GO, Pós-graduado em Direito Tributário; Políticas Públicas; Controladoria; Gestão de Pessoas e Autor de artigos em periódicos especializados em Direito Administrativo e Municipal. Possui expertise na integração entre tecnologia e Direito, desenvolvendo soluções que envolvem automação de fluxos, inteligência artificial e bancos de dados vetoriais aplicados à gestão pública. É também produtor de conteúdo jurídico com foco em Legal Design e Visual Law